Feminicídio não é acidente — é projeto
Três milênios construídos sobre o ódio às mulheres não se dissolvem com hashtags, nem com campanhas protocolares de governo

92amz está no Bluesky clique no link para seguir @92amz.bsky.social
Junte-se ao nosso canal no WhatsApp e tenha acesso exclusivo ao 92amz LINK
Da Redação/Portal 92amz (92)981517280

Por Vivian Mesquita colunista do ICL
A escalada da violência contra mulheres nos últimos dias não é um susto coletivo; é um recado. Um recado de que o Brasil continua sendo um país onde ser mulher é viver no fio da navalha — e onde a morte, muitas vezes, aparece como desfecho anunciado de uma sequência longa e ignorada de abusos.
No Rio de Janeiro, duas mulheres foram executadas dentro de um colégio federal. Em Goiás, uma técnica de enfermagem foi assassinada pelo ex, mesmo após pedir proteção ao Estado. Em São Paulo, duas cenas que parecem saídas de um pesadelo: um homem armado invade a pastelaria onde a mulher trabalhava e dispara contra ela com duas armas; outro atropela e arrasta uma mulher por um quilômetro; a vítima, mãe de duas crianças, teve as pernas amputadas. No Ceará, mais uma morte violenta, a facadas, pelas mãos de um ex. No Recife, um crime tão brutal que dói descrevê-lo: uma mulher grávida e quatro crianças queimadas vivas pelo homem que deveria protegê-las.
Enquanto isso, na Itália, o Parlamento aprova prisão perpétua para crimes de feminicídio. Aqui, discutimos ainda se meninas estupradas devem ou não ser criminalizadas por interromper uma gravidez que nunca escolheram. A distância civilizatória não está apenas nas leis — está na forma como olhamos para a violência. Ou melhor: na forma como não olhamos.
Nas redes, voltou a circular um trecho de uma entrevista do escritor e psicanalista Contardo Calligaris em que ele afirma que a misoginia não é um acidente histórico, mas o coração pulsante da civilização ocidental. Três milênios construídos sobre o ódio às mulheres não se dissolvem com hashtags, nem com campanhas protocolares de governo. Muito menos quando insistimos em fingir que feminicídio é um acaso trágico, um surto isolado, um problema doméstico.
Desde 2015, a Lei do Feminicídio reconhece que mulheres morrem porque são mulheres. Parece óbvio, mas até isso nós tivemos de provar. Ainda assim, o debate público continua simplificando o fenômeno. Reduzimos feminicídio a brigas de casal, como se fosse um desarranjo privado e não um fracasso de Estado e da sociedade.
O país registrou 1.492 feminicídios em 2024. Quatro mulheres assassinadas por dia. Quatro. E quantas morreram um pouco antes disso? Quantas já estavam sendo destruídas pelo abuso psicológico, pelo assédio cotidiano, pela humilhação estrutural que ensinamos a camuflar como “ciúme”, “cuidado”, “temperamento”, “questão de família”?
Feminicídio é o fim da linha. Mas a violência começa muito antes — no comentário, na ameaça, no controle, na chantagem, no silêncio cúmplice. A morte é apenas o capítulo final de uma história que todos nós, como sociedade, insistimos em reescrever como se fosse ficção inevitável.
E cada uma dessas mortes ou tentativas, tem nome:
Allane de Souza Pedrotti Mattos
Layse Costa Pinheiro
Rosilene Barbosa
Evelin de Souza Saraiva
Tainara Souza Santos
Jhessilane Silva
Isabele Gomes de Macedo
O Brasil precisa decidir se vai continuar sendo o país que empurra mulheres para o obituário — ou se finalmente vai assumir que proteger a vida delas é uma obrigação coletiva, e não um favor tardio.